O EVANGELISTA ATEU / Índice - Resposta ao Evangelho de Saramago

Capítulo I
ANÚNCIO DA ESCRITA DE UM EVANGELHO

A notícia tinha começado a espalhar-se, e vinha, pelos ares, ovantemente, assaltando a gente desprevenida:

- Ainda há quem, num tempo como o nosso, se ocupe, a escrever um Novo Evangelho!

Em comentários pertinentes, levantaram-se vozes:

- Como é possível!?! Há quanto já passou Jesus Cristo, pela Terra?... E só agora surgem testemunhos?...

- Evangelhos?! Já estão escritos quatro. Ressuscitou alguém de entre os mortos, para escrever um quinto?!

A notícia, já antes iniciada, continuou a fazer-se vibrar pelos ouvidos circunstantes:

- E quem escreve este Novo Evangelho (e isso é bom que se observe!) é um homem que se diz ateu!

A palavra "ateu!" soando, retumbante, com estrondo de granada, fez crescer, ali, subitamente, um avolumado espanto.

Surto deste espanto, como dum materno ventre, veio um desabafo instante:

- Um ateu a escrever um Evangelho?! Só se for por gozo!...

E a notícia voltou, de novo, ao seu iniciado gesto de deflorar-se, de debagar-se, - esgotantemente, no ar:

- Esse Novo Evangelista diz ter todo o prazer do mundo em tratar deste caso estranho de alguém que, sendo um simples homem, se dizia ser Deus.

Levantou-se, então, ali, um Coro, a jeito do que se passa nas tragédias gregas, - angustioso e solene:

- Oh, infeliz e mesquinho, entre todos os infelizes e mesquinhos deste planeta Terra, que assim ousa tocar, com mão imunda, na fímbria do Santo!

Estava a notícia, na sua escorrência final, e ali se derramou, ao findar-se, como um último pingo verde de azeite que cai, a alimentar uma lamparina ardente:

- E ele ali vai afirmar, sobre Jesus e os seus, todas as mirabulâncias incontidas que the adregarem vir à cabeça.

Foi então a vez da voz do Coro crescer, a todo o ponto, e de invadir e ocupar espaço circundante, como um ribombo de trovão:

- Oh, o desgraçado do homem, que assim foi perder o siso!

*

Caía a noite branda, qual um imenso manto preto de viúva, a estender-se, manso, por sobre os povoados, em volta. E todos sentiram que carradas de sombra não tardariam a vir, por ali, a tombar! e que medos de morte iriam nascer, no fundo dos peitos!

- Está na hora dos lobos! - disse alguém, entre tantos.

E já outros, indagantemente perplexos, olhando o que viam, vergados pelas cicunstâncias acabrunhadoras, terminavam:

- E dos falsos profetas que andam, por aí, à cata das ovelhas mal protegidas...


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